Sandra Bastos
Entre o que vemos e aquilo que julgamos ver, Espelho, o novo disco de Inês Vaz, propõe um lugar de escuta e reflexão. Segundo capítulo de uma trilogia iniciada com Pétala e que terminará com Véu, o álbum cruza repertório histórico e criação contemporânea, música e poesia, memória e futuro. À Da Capo, a acordeonista fala sobre a inquietação que deu origem ao disco, a paixão que orienta as suas escolhas musicais, o caminho ainda por percorrer pelo acordeão e uma vontade que ultrapassa o próprio instrumento: expandir mundos sem perder de vista o horizonte.
O espelho de um mundo distorcido
“Quantas vezes olhámos o espelho e não nos reconhecemos?”. A questão é colocada no texto de apresentação de Espelho, o novo disco da acordeonista Inês Vaz. A inspiração surgiu de uma imagem da peça “Two Keys to one poem by J. Brodksy” de Sergey Akhunov, nomeadamente nos andamentos “The Moon” e “The River”. Há alguém em fuga, que corre pelas margens de um rio, de noite, sob a luz da Lua, até que para, exausta, e olha para a água: “vê a sua imagem refletida, com uma certa distorção provocada pelo movimento da água e pelo cansaço da fuga”.
Foi assim que chegou ao Espelho, à sensação do espelho de um mundo distorcido, em que se questiona o lugar da realidade e como a podemos reconhecer e distinguir: “E ainda como será a adaptação a um mundo onde parece existir um certo elogio da não verdade, e onde esta parece até ser uma bandeira”.
A música como lugar de transparência
Se os discos podem criar também uma narrativa, o fio condutor de Espelho seria “um lugar de questionamento livre, em que cada um sinta que possa fazer sentido para si”. Voltemos à metáfora da fuga e do espelho distorcido. E acrescentemos uma “ideia de nevoeiro”, porque é no meio dessa nebulosidade que temos de enxergar a transparência do Espelho, da realidade: “quando tudo é facilmente manipulável, curiosamente num tempo em que olhá-lo até é mais banal que nunca (através das selfies, de vídeos, fotografias...), não deixa, no entanto, de ser um olhar fugaz”.
A música surge, assim, como uma forma de ver, de enxergar essa transparência tão procurada: “Gosto de pensar que a música e a arte no geral podem ser, mais do que nunca, grandes veículos dessa transparência, lugares onde a luminosidade pode aparecer e dar lugar a um “espelho” mais nítido”.
Entre a memória e o futuro, é a paixão pela música que prevalece
Em Espelho, podemos ouvir o Quinteto op. 81, de Dvořák, numa versão para acordeão, em que o acordeão ocupa o lugar do piano. A ideia desta interpretação nasceu da escuta de Inês Vaz: “Dedico muito tempo a ouvir música, por pura paixão, mas inevitavelmente a cada escuta, e particularmente se for uma obra com a qual crie ligação, imagino se poderá fazer sentido no acordeão, foi o que aconteceu com este Quinteto de Antonín Dvořák”.
Essa liberdade de escuta ajuda também a compreender um disco onde repertório histórico e criação contemporânea convivem, incluindo primeiras gravações. “A ideia do tempo e a forma como memória e futuro andam de mãos dadas é algo que me agrada bastante e que não deixa de ser mais uma inquietação”, sublinha.
No entanto, o principal critério de seleção foi “uma paixão enorme pela música que acaba por prevalecer em detrimento de pensar muito na forma como as escolhas musicais se podem encaixar ou não em diferentes épocas”.
A cumplicidade com a Camerata Atlântica
Espelho marca também cerca de uma década de colaboração entre Inês Vaz e a Camerata Atlântica, uma das primeiras formações de música erudita com quem a acordeonista teve oportunidade de tocar. Uma relação com um significado pessoal particular, construída em paralelo com o próprio percurso da formação: “Tem sido um privilégio assistir ao percurso da Camerata Atlântica ao longo destes seus também 10 anos de existência. E obviamente um igual privilégio gravar este disco com eles”.
No disco, Inês Vaz é acompanhada pelos Solistas da Camerata Atlântica Ana Beatriz Manzanilla e João Vieira de Andrade, no violino, Pedro Saglimbeni Muñoz, na viola, e Jeremy Lake, no violoncelo, que “trouxeram, para além do seu talento e conhecimento, uma entrega e rigor enormes a esta gravação”.
“A música foi tratada de forma extremamente cuidada desde a primeira até à última nota, assim como a relação musical que se estabeleceu, e creio que também dessa forma se definiu a identidade deste Espelho”, destaca.
Pétala, Espelho e Véu: as camadas do ser humano
Espelho é o segundo capítulo de uma trilogia iniciada com Pétala e que terminará com Véu. Uma ligação que, porém, não foi pensada desde o início. Foi durante a gravação de Espelho, quando começou a surgir Véu e o repertório que dele fará parte, que Inês Vaz percebeu que os três discos poderiam estar interligados: “os três são metáforas das camadas do ser humano ou do mundo com todas as suas emoções reunidas”.
“Pétala é uma metáfora mais interior, no sentido de nos pensarmos e conhecermos interiormente, “pétala a pétala”, no Espelho paramos para olhar o outro e o que o Espelho nos comunica, e Véu, é algo que vem do exterior e nos cobre, molda o olhar, quase como uma segunda pele”, explica.
“criar uma narrativa aberta que possa unir todo o alinhamento musical”
Além da música, também as palavras estão presentes no disco através dos poemas de Konstandinos Kavafis, Maria Teresa Horta e António Ramos Rosa. Como leitora compulsiva, Inês Vaz estabelece inevitavelmente uma relação entre as suas leituras, o período do processo de gravação e a música.
“É algo que uma vez mais ocorre de forma pouco pensada, e o guião (se assim lhe podemos chamar) vai surgindo, na ideia de como referi mais acima, criar uma narrativa aberta que possa unir todo o alinhamento musical”, afirma.
“há ainda um espaço a abrir e redefinir”
A afirmação do acordeão no repertório erudito é um facto, que “resulta também de um trabalho de décadas, desenvolvido por vários professores e acordeonistas que muito contribuíram e têm contribuído para esse desenvolvimento”.
Porém, fora do círculo da “bolha cultural” da música erudita, ou seja, para um público mais amplo e geral, “há ainda um longo caminho a percorrer” e, nesse contexto, sente que “há ainda um espaço a abrir e redefinir”. Por exemplo, “é muito raro receber um novo aluno que conheça o acordeão numa perspetiva erudita”. O mesmo aconteceu em vários locais ondetem ido tocar: “São, na minha opinião, indicadores de que ainda há algo a fazer”.
Expandir mundos sem perder o horizonte
Perante um caminho em transformação, Inês quer “expandir mundos” e alargar o espaço do acordeão. “Mas de forma artística essa será também uma busca incessante, praticamente uma forma de estar e de viver, fruto de uma curiosidade e vontade de olhar/pensar o mundo e expressá-lo através da música”, confessa.
Expandir parece-lhe tanto mais necessário quanto, olhando para a atualidade, sente que os mundos se estreitam. Inês regressa então ao imaginário de Espelho, onde encontra “uma certa imposição de um formato vertical na imagem”, “as caras têm mais zoom e alta definição, mas não se vê o que está além, perde-se toda a amplitude de uma visão mais panorâmica”: “creio neste momento ser transversal a muitos movimentos sociais que estão a sofrer um enorme retrocesso”.
“espero que o público sinta e encontre do outro lado do Espelho”
O processo de gravação de Espelho foi “um momento riquíssimo de aprendizagem e crescimento”, tanto a nível musical como intelectual: “talvez seja o que mais me fascina ao usufruir de toda a sua construção, o que me leva também a sentir um entusiasmo enorme pelas próximas gravações”.
Quando o disco sai do estúdio e chega ao público, deixa também de pertencer apenas a quem o criou: “é extremamente recompensador, e toda essa entrega e paixão com que foi vivido é o que espero que o público sinta e encontre do outro lado do Espelho, e que o receba como seu”.
O mais importante é “que seja um tempo de escuta, onde possa reconhecer-se através da música, dos poemas, e quem sabe construir a sua própria história e olhar em torno do Espelho”.