Sandra Bastos
Virgílio Oliveira é primeiro fagote solista da Staatsorchester Stuttgart, na Alemanha, onde divide os dias entre óperas, bailados e concertos. O percurso começou em Guimarães e levou-o a estudar e a trabalhar em diferentes cidades europeias, até partilhar o palco com músicos que conhecera através dos discos. Em conversa com a Da Capo, fala das experiências que o marcaram, da responsabilidade de tocar em orquestra e da importância de encontrar uma linguagem musical própria. Pelo meio, há espaço para os desafios do ensino, a vontade de voltar mais vezes a Portugal e a cozinha, onde consegue desligar de uma rotina quase sempre acompanhada pelo fagote.
“continuei com o fagote até hoje e sou feliz com a minha escolha”
A relação de Virgílio Oliveira com o fagote começou aos oito anos, na Academia de Música Valentim Moreira de Sá, em Guimarães, onde os pais o tinham inscrito em Educação Musical. Uma tia, que trabalhava na Academia, falou-lhe da abertura de uma nova classe e sugeriu que fosse conhecer o instrumento. O professor Pedro Silva apresentou-lhe o fagote e o entusiasmo foi imediato: no regresso a casa, disse ao pai que queria aprendê-lo. No dia seguinte, teve a primeira aula.
Uma semana depois, o oboé quase lhe trocou as voltas. Ao conhecer o instrumento, chegou a questionar a escolha, mas decidiu manter o compromisso que tinha assumido: “continuei com o fagote até hoje e sou feliz com a minha escolha”.
“na Alemanha, há um foco maior na preparação para uma vida profissional em orquestra e música de câmara”
Depois de Guimarães, estudou na ARTAVE (Escola Profissional Artística do Vale do Ave) e na ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo Virgílio Oliveira). Seguiu para a Escola Superior de Música de Lübeck, na Alemanha, onde estudou fagote com Pierre Martens e contrafagote com Björn Groth. Fez também uma pós-graduação em Fagote na Universidade Mozarteum de Salzburgo, com Marco Postinghel.
A sua formação em diferentes contextos e períodos torna difícil comparar diretamente os três países onde estudo. Mas é possível identificar algumas particularidades. “Diria que comparativamente à Alemanha e à Áustria, Portugal sofre um pouco com a menor atividade cultural oferecida, assim como com a menor capacidade financeira das escolas para oferecerem instalações melhores, a falta de bolsas de estudo ou mesmo a escassez de instrumentos que possam ser emprestados a alunos”, afirma.
As diferenças estão também no repertório trabalhado: “Tenho a ideia que em Portugal se prepara muito repertório solo e diria que, na Alemanha, há um foco maior na preparação para uma vida profissional em orquestra e música de câmara”.
A experiência na Áustria, com uma pós-graduação de dois anos, acabou por não criar uma relação forte com aquele país, já que as aulas se realizavam em Munique, na Alemanha, onde vivia o seu professor.
A influência de Pedro Silva e Marco Postinghel
Entre os professores que mais o marcaram, destaca Pedro Silva, que “será sempre incontornável”, já que o conhece e o acompanhou desde os oito anos até à sua entrada na vida profissional, com uma curta interrupção pelo meio.
Realça também o papel de Marco Postinghel, com quem estudou em Salzburgo: “alguém que, sem dúvida, moldou de forma fortíssima a minha perspetiva de ver a música e que fez subir imenso o meu nível de exigência, de critério e de busca, tendo sido uma enorme inspiração para mim”.
Da compra de CDs à partilha do palco com as suas referências
Virgílio Oliveira recorda os tempos em que estudava na ARTAVE e guardava dinheiro todos os meses para comprar CDs, já que não havia plataformas de streaming nem grande possibilidade de ouvir música online. Era assim que ouvia os fagotistas e outros intérpretes que admirava, sem imaginar que, anos mais tarde, iria partilhar o palco com esses ídolos: “Felizmente hoje posso dizer que tenho a sorte e o privilégio de ter tocado, convivido ou experienciado concertos ao vivo com muitos desses músicos de referência, algo que é muito marcante e gratificante para mim”.
Lembra igualmente as primeiras experiências em grandes orquestras e a conquista do lugar de Fagote Solista na Deutsche Kammerphilharmonie Bremen: “penso que foi, de algum modo, um ponto de viragem para mim e para a minha carreira de forma muito positiva”. Posteriormente, ganharia o mesmo lugar na Staatsorchester Stuttgart, posição que ocupa atualmente.
“todos somos parte de um grupo e todos podemos ter ideias ou fazer sugestões de modo a melhorar o resultado coletivo”
Hoje, como primeiro fagote solista da Staatsorchester Stuttgart, divide o trabalho entre ópera, bailado, concertos sinfónicos e música de câmara. O lugar implica também alguma liderança entre os colegas das madeiras e, em particular, dos fagotes. “Sinto que de algum modo tenho de fazer um trabalho exemplar e talvez também de (tentar) motivar os colegas ao meu redor, mantendo sempre uma atmosfera positiva e de abertura ao diálogo, pois penso que todos somos parte de um grupo e todos podemos ter ideias ou fazer sugestões de modo a melhorar o resultado coletivo”, sublinha.
A responsabilidade também se estende à própria reputação da orquestra, qye conta com mais com mais de 430 anos de história e com nomes enormes associados, como J. N. Hummel, Clara Schuman e Johannes Brahms, Carlos Kleiber e Richard Strauss. “Em tantos séculos de história, acaba por ser normal que se vão acumulando alguns destes grandes nomes, e isso transmite, de algum modo, um sentido de responsabilidade, e pelo menos para mim, faz-me tentar todos os dias que esteja ao melhor nível de preparação e de desempenho possível, quase que de modo a honrar estes gigantes que muito antes de mim pisaram estas mesmas instalações.”
“quem vai a um espetáculo, não vai lá à procura do erro, mas sim para passar um bom bocado e vivenciar o que de especial há num evento ao vivo”
Uma posição tão exigente exige, naturalmente, uma preparação rigorosa.: “estar bem preparado e ter bom material é algo que me tranquiliza bastante na hora de tocar”. A experiência também lhe ensinou a relativizar os momentos em que alguma coisa corre menos bem: “No fundo, não está a vida de ninguém em jogo e, pensar assim, ajuda a minimizar um pouco a pressão; e ter consciência de que quem vai a um espetáculo, não vai lá à procura do erro, mas sim para passar um bom bocado e vivenciar o que de especial há num evento ao vivo, como um concerto, uma récita de ópera ou ballet, proporciona”.
Já o equilíbrio entre a profissão e a vida pessoal é mais difícil de encontrar. A música e o fagote acompanham-no desde tão cedo que quase não tem memórias sem eles. Entre estudo, preparação do material e ensaios, há sempre alguma coisa para fazer: “Talvez ainda não tenha encontrado esse equilíbrio, talvez nunca o encontre pois, como disse, já está de tal maneira enraizado no meu dia-a-dia que se calhar já é difícil desligar por completo”.
Talvez haja um lugar onde consiga desligar: a cozinha. “Gosto de ter um bom par de horas livres e cozinhar com calma – é uma maneira que tenho de me desconectar um pouco”, confessa.
Munique, Bremen e Stuttgart: cada orquestra, uma aprendizagem
Na sua ainda jovem carreira, passou por diferentes orquestras. Em Munique, na Orchester des Staatstheaters am Gärtnerplatz, teve o primeiro contacto regular com o repertório operático: “Foi onde aprendi a tocar ópera, a entender melhor as questões de timing e a desenvencilhar-me melhor com menos ensaios”.
A passagem pela Deutsche Kammerphilharmonie Bremen foi curta, por opção própria, mas marcou a sua atenção ao detalhe: “É uma orquestra que funciona literalmente como um grande grupo de música de câmara e onde todos os pequenos detalhes não são deixados ao acaso - isso tem um resultado muito poderoso”.
Em Stuttgart, encontrou um trabalho semelhante ao de Munique, mas mais intenso, com um repertório mais exigente e variado: “Há sempre várias óperas em rotação a decorrer em espetáculos. Ao mesmo tempo pode haver ensaio de novas produções, assim como semanas em que há concertos sinfónicos a decorrer e bailados. Isto obriga a um traquejo e flexibilidade muito grande”.
“um concurso é todo o caminho feito antes de chegar à meta final”
Os concursos também ajudaram a construir o seu percurso. O fagotista reconhece que um prémio internacional traz prestígio e abre portas, mas valoriza sobretudo os meses de preparação: “Para a esmagadora maioria dos candidatos, um concurso é todo o caminho feito antes de chegar à meta final – são os meses anteriores de intensa preparação e estudo, de autorreflexão e conhecimento, de puxar limites, de preparação mental e física, de foco, e, no caso de instrumentos de palheta, de busca pelo material e balanço certo”.
A sua participação no concurso de Praga foi particularmente marcante: “foi a partir daí que decidi tentar fazer carreira fora de Portugal”. Mais tarde, no concurso ARD, em Munique, ficou entre os cinco semifnalistas e teve ia oportunidade de tocar a solo com a Münchener Kammerorchester, uma experiência que recorda com especial felicidade.
“Respeito mais alguém que tenha a coragem de uma interpretação fundamentada e própria, do que alguém que opte por uma interpretação que evite critica”
Recentemente, alargou a sua carreira ao ensino, tendo trabalhado, durante um semestre, como professor de excertos orquestrais e de palhetas na Hochschule für Musik Saar, em Saarbrücken. Ajudar os alunos a progredir e a ganhar autonomia foi a principal motivação, mas a aprendizagem estendeu-se ao próprio professor: “Tentar explicar para outros algo que eu já interiorizei ou que me é já natural, obriga-me a refletir sobre muitos aspetos e a pensar na melhor forma chegar a cada aluno”.
Nas aulas, procura que cada um descubra o que funciona para si e que encontre a sua própria linguagem musical: “cada aluno é diferente e cada um precisa de diferentes ferramentas para se melhorar”.
Critica a tendência de se tocar de uma forma muito “standard”, que descreve como “inatacável”, mas aborrecida: “Respeito mais alguém que tenha a coragem de uma interpretação fundamentada e própria, do que alguém que opte por uma interpretação que evite critica”.
É essa liberdade de escolha, apoiada no conhecimento, que procura promover nos seus alunos: “Tento sempre o meu melhor em cada aula para dar as ferramentas necessárias para que cada aluno consiga encontrar, ao longo do caminho, a sua voz”.
“o que pode funcionar na perfeição para mim pode ser o pior pesadelo de outro colega”
Aos jovens fagotistas que desejam seguir uma carreira internacional, Virgílio Oliveira recomenda “muito trabalho, obviamente, mas especialmente, consistência. Tomar o tempo para fazer regularmente uma autoanálise do que é preciso melhorar”.
Destaca um hábito que lhe mudou a vida e que mantém até hoje – a gravação: “Há muita coisa que tocando, uma pessoa não se apercebe e, mal ouvimos na gravação, damos de imediato conta”.
Aconselha também a ouvir música além do fagote e a dedicar tempo à escolha e ao trabalho das palhetas. “Tomem tempo para perceber o que funciona no que toca a palhetas e não acreditar em receitas milagrosas - o que pode funcionar na perfeição para mim pode ser o pior pesadelo de outro colega”, afirma.
“o mercado português é muito pequeno, e grande parte desses músicos sente a necessidade de sair do próprio país para poder exercer carreira”
A ligação ao meio musical português mantém-se, embora com menos regularidade do que gostaria. Virgílio Oliveira tem regressado para recitais e masterclasses e apresentou-se a solo com a Orquestra Sinfónica ARTAVE e a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras. A Orquestra XXI foi também um ponto de contacto, mas não tem conseguido participar nos seus projetos nos últimos anos.
Acredita que crescimento do número de músicos portugueses no estrangeiro é “uma prova de que o sistema de ensino em Portugal tem dado excelentes frutos”. No entanto, infelizmente, significa também que “o mercado português é muito pequeno, e que grande parte desses músicos sente a necessidade de sair do próprio país para poder exercer carreira”.
Para o futuro, há ideias e projetos, mas nada que possa já divulgar. “Diria que qualquer pessoa, seja em que área for, precisa de objetivos, projetos e sonhos. No meu caso, além da minha busca diária, há ainda várias ideias de coisas que eu gostaria de fazer”, acrescenta.
Fotos: Dumitrița Gore e João Queirós.